Câmbio

Real recua frente ao dólar após dados do emprego nos EUA surpreenderem positivamente

Por Camila Furtado  ·  Publicado em 24 de julho de 2026  ·  Atualizado em 24 de julho de 2026

O real fechou a sessão de quinta-feira cotado a R$ 5,38 por dólar, queda de 1,2% em relação ao dia anterior. O gatilho foi a divulgação do relatório de emprego americano de junho, que mostrou criação de 287 mil vagas não-agrícolas — número bem acima das 220 mil projetadas pelo consenso de mercado.

A surpresa positiva nos dados americanos reforçou a narrativa de que o Federal Reserve pode manter os juros em patamar elevado por mais tempo. Isso aumenta o diferencial de atratividade dos ativos americanos em relação aos emergentes, provocando saída de capital e pressão sobre moedas como o real, o peso mexicano e a lira turca.

Por que o payroll importa tanto para o Brasil

O mercado de câmbio brasileiro é altamente sensível ao humor global. Quando os dados americanos surpreendem para cima, o dólar se fortalece globalmente, e o real tende a ceder — mesmo que os fundamentos domésticos não tenham mudado. É uma dinâmica que frustra quem tenta analisar o câmbio olhando apenas para o Brasil.

"O real tem fundamentos razoáveis, mas não consegue se descolar do movimento global quando o dólar se fortalece. Não é uma fraqueza específica do Brasil." — operador de câmbio de banco de médio porte.

O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos ainda é significativo — a Selic está em 13,75% enquanto os fed funds ficam entre 5,25% e 5,50%. Mas esse diferencial não é suficiente para blindar o real quando o sentimento global piora. O que conta, na prática, é o diferencial ajustado pelo risco-país, e o Brasil ainda carrega um prêmio de risco considerável.

Perspectivas para o segundo semestre

Analistas consultados pela redação divergem sobre o nível do câmbio até o final do ano. O cenário mais otimista, de R$ 5,10 por dólar, depende de uma combinação improvável: dados de inflação americanos abaixo do esperado, melhora no fiscal brasileiro e estabilidade política. O cenário mais pessimista aponta para R$ 5,70, caso o Fed sinalize mais altas de juros e o risco fiscal doméstico se materialize.

Para quem tem dívidas em dólar ou despesas em moeda estrangeira, o momento pede atenção. Hedge cambial, mesmo que parcial, pode ser uma proteção razoável num ambiente de tanta incerteza.

Camila Furtado

Repórter Sênior

Cobre câmbio e macroeconomia internacional. Mantém coluna semanal sobre os impactos da política do Fed no Brasil. Formada em economia pela USP.